Rio (R. Menescal, R. Bôscoli)

Rio que mora no mar,
sorrio pro meu Rio que tem no seu mar
lindas flores que nascem morenas
em jardins de sol.

Rio seras te veludo,
sorrio pro meu Rio que sorriu de tudo.
Que é dourado quase todo dia
e alegre com a luz.

Rio é mar, eterno se fazer amar.
O meu Rio é lua, amiga branca e nua.

É sol, é sal, é sul,
são mãos se descobrindo em tanto azul.

Por isso que meu Rio dá mulher beleza,
acaba num instante com qualquer tristeza
meu Rio que não dorme porque não se cansa,
meu Rio que balança
sou Rio, sorrio. Sou Rio, sorrio.

Rio (translation by C. Bent)

Rio who lives by the sea,
I’m smiling for my Rio
with beautiful flowers by the sea
blooming brunette in gardens of sun.

Rio of velvet,
I’m smiling for my Rio who smiles at everything,
Golden nearly every day
and joyous in the light.

Rio is the sea, eternally seducing me.
My Rio is the moon, my friend naked and white.

It’s the sun, the salt, the south,
It’s hands discovering each other in all this blue.

That’s why my Rio makes women beautiful,
instantly erasing any sadness.
My Rio that doesn’t sleep because it doesn’t get tired,
my Rio that dances
I’m Rio, I smile. I’m Rio, I smile.

Nothing Will Be As It Was (translation by C. Bent)

I have already set foot on this road,
some day we will see each other again.
I know, tomorrow, nothing will be as before.
What news will I have of our friends?
What news will I have of you?
I know that nothing will be as it was,
tomorrow or after tomorrow.
Holding a taste of sun in the mouth of the night.

Some Sunday at some time
the wind will blow in some direction
I know tomorrow nothing will be as it was.
What news will you give me of our friends?
What news will you give me of yourself?
I know that nothing will be as it was,
tomorrow or the day after.
Holding a taste of sun in the mouth of the night.

Nada Será Como Antes (M. Nascimento, R. Bastos)

Eu já estou com o pé nessa estrada,
qualquer dia a gente se vê.
Sei que nada será como antes amanhã.
Que notícias me dão dos amigos?
Que notícias me dão de você?
Sei que nada será como está,
amanhã ou depois de amanhã.
Resistindo na boca da noite um gosto de sol

Num domingo qualquer qualquer hora
ventani em qualquer direção.
Sei que nada será como antes amanhã.
Que notícias me dão dos amigos?
Que notícias me dão de você?
Sei que nada será como está,
amanhã ou depois de amanhã.
Resistindo na boca da noite um gosto de sol

Caminhos Cruzados (A. C. Jobim, N. Mendonça)

Quando um coração que está cansado de sofrer
encontra um coração também cansado de sofrer,
é tempo de se pensar
se o amor pode de repente chegar.

Quando existe alguém que tem saudade de alguém
e esse outro alguém não entender –
deixe esse novo amor chegar
mesmo que depois seja imprescindível chorar

Que tolo fui eu que em vão tentei raciocinar
nas coisas do amor que ninguém pode explicar
Vem, nós dois vamos tentar,
só um novo amor pode a saudade apagar.

Crossed Paths (translation by C. Bent)

When a heart, tired of suffering,
meets another heart, also tired of suffering,
it’s time to wonder
if love could come.

When there’s somebody longing for another,
and the other just doesn’t understand –
let this new love arrive
even if crying might later be inevitable.

What fool was I who tried in vain to rationalize
the things of love that no one can explain.
Come, we two will have a try,
only a new love can end the constant longing.

Tico Tico (Rufous-collared sparrow) on the Corncake (translation by C. Bent)

The Tico Tico is already back again,
the Tico Tico is eating my corncake
The Tico Tico has to feed,
So how about eating some worms in the orchard?

Oh, please, get rid of the bird in the granary
because he’ll eat all my corncake.
Get rid of this bird here, who eats my fubá,
there are so many things he could pick at instead.

I already tried everything to see what could help:
I gave him birdseed to see if he would eat it.
I brought out a rooster, built a scarecrow and a trapdoor,
but he simply thinks that corncake is good food.

Tico Tico no Fubá (Z. de Abreu)

O Tico Tico tá, tá outra vez aqui
o Tico Tico tá comendo meu fubá.
O Tico Tico tem, tem que se alimentar
que vá comer umas minhocas no pomar?

O por favor tire esse bicho do celeiro,
que ele acaba comendo o fubá inteiro.
Tire esse bicho de lá, que vá comer meu fubá,
tem tanta coisa que ele pode pinicar.

Eu já fiz tudo para ver se conseguia:
botei alpiste para ver se ele comia.
Botei um galo, um espantalho e alçapão,
mas ele acha que fubá é que é boa alimentação.

Choro Bandido (E. Lobo, C. Buarque)

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu serão bonitas, não importa, são bonitas as canções.
Mesmo miseráveis os poetas os seus versos serão bons.
Mesmo porque as notas eram surdas quando um Deus sonso e ladrão fez das tripas a primeira lira que animou todos os sons.
E daí nasceram as baladas e os arroubos
de bandidos como eu cantando assim:
você nasceu pra mim, você nasceu pra mim.

Mesmo que você feche os ouvidos e as janelas do vestido minha musa vai cair em tentação. Mesmo por que eu estou falando grego com sua imaginação.
Mesmo que você fuja de mim por labirintos e alçapões, saiba que os poetas como cegos podem ver na escuridão.
E eis que menos sabios do que antes os seus lábios ofegantes hão de se entregar assim:
Me leve até o fim, me leve até o fim.

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso são bonitas, não importa, são bonitas as canções.
Mesmo sendo errados os amantes, seus amores serão bons.

Bandit Choro (translation by C. Bent)

Even though singers are liars like me,
no matter, their songs are beautiful.

Even though poets are wretched
their verses are good.
Even though notes were deaf
until a devious and thieving god took animal guts and
made the first lyre; he brought all sounds to life.
He gave birth to the ballads,
and bandits like me sang out:
You were born for me. You were born for me.

Even when you close your ears
and draw the curtains of your dress
my Muse will still fall into temptation.
Even as I am speaking Greek in your imagination,
Even as you flee from me through labyrinths and trapdoors,
know that poets can see in the dark
just like the blind.
And this is how, less wise now, your panting lips are giving you away, saying:
Take me to the end. Take me to the end.

Even when romances are false like ours
they are beautiful, it doesn’t matter.
Songs are beautiful.
Even when lovers go wrong, their love is good.

Chovendo na Roseira (A. C. Jobim)

Olha! Está chovendo na roseira,
que só dá rosa mas não cheira.
A frescura das gotas humidas
que é de Luísa, que é de Paulinho,
que é de João, que é de ninguém.
Pétalas de rosa carregadas pelo vento,
um amor tão puro carregou meu pensamento.
Olha, um Tico Tico mora ao lado
e passeando no molhado
adivinhou a primavera.

Olha, que chuva boa prazenteira,
que vem molhar minha roseira.
Chuva boa, criadeira,
que molha a terra, que enche o rio,
que lava o céu, que traz o azul.

Olha, o jasmineiro está florido
e um riachinho de água esperta
se lança em vasto rio de águas calmas.

Ah, você é de ninguém.

Raining on the Rosebush (translation by C. Bent)

Look! It’s raining in the rosebush,
the one that only bears roses but doesn’t smell.
The freshness of the humid drops
– one for Luisa, one for Paulinho,
one for João, one for nobody.
Petals of the rose borne on the wind
A love so pure carried away my thoughts.
Look, a Tico Tico lives by the side and passes through the dampness,
predicting the spring.

Look at this good, cheerful rain,
that came to water my rosebush
A good rain, nurturer,
Which moistens the land, fills the river,
washes the sky, brings the blue.

Look, the jasmine is blooming
and a little stream of expert water flows
into the vast river of calm waters.

Ah, you belong to no one.

A Mais Bonita (C. Buarque)

Não solidão, hoje não quero me retocar.
nesse salão de tristeza onde as outras penteiam mágoas.
Deixo que as águas invadam meu rosto,
gosto de me ver chorar
Finjo que estão me vendo,
eu preciso me mostrar bonita,

pra que os olhos do meu bem
não olhem mais ninguém
quando eu me revelar da forma mais bonita
pra saber como levar todos os desejos que ele tem ao me ver passar bonita.
Hoje eu arrasei na casa de espelhos,
espalho os meus rostos e finjo que, finjo que, finjo que não sei.

The Prettiest One (translation by C. Bent)

No, solitude, today I don’t want to put on my makeup,
in this salon of sadness where the other women comb their grief.
I let the waters invade my face,
I like to see myself cry
Pretending they see me,
I have to present myself pretty,

so that the eyes of my beloved
won’t see anyone but me,
when I reveal myself in the loveliest form,
in order to raise all his ultimate desires
at seeing me pass by so beautiful
Today I outdid myself in the house of mirrors,
I scatter my faces and pretend, pretend,
pretend that I don’t know.